segunda-feira, 21 de março de 2011

Oceanos

Eu hoje estreio um blog novo. Nesse aqui eu só vou botar o que é dos outros. Textos, poesias, livros, músicas e situações analisadas por mim, quando isso for possível. Vou demorar a escrever nesse tanto quanto demoro pra escrever no outro, então, tenha paciência.
O post inaugural será sobre um texto que li há alguns dias, antes do Carnaval, cujo nome é "Oceanos". Escrito pela querida Alana, aqui está o encanto.

Maria Luiza pôs as mãos nos olhos miúdos e viu que dalí saia água. Levou a água à boca e viu que era salgada. Mas a água da geladeira era doce, e pelo que sabia água salgada vinha do mar. Tirou a conclusão mais óbvia possível: tinha um mar dentro de si.

A menina resolveu não contar pra ninguém. Enxugou os olhos nas costas das mãos e depois as mãozinhas no vestido. Pensou que se a mãe soubesse que a menina tinha um mar dentro de si, ia brigar. Mar não é o tipo de coisa domesticável. O cachorro era. O gato era. O peixinho dourado no aquário também era. Mas o mar? O mar era outra coisa. Era infinito. Era azul. Ou verde. Era de todas as cores do mundo. Era gigante e cabia dentro dela. Ela o guardava, mas ele não era colorido, era transparente. Puro.

Não ousava por ele pra fora de novo, engolia o choro quando brigavam com ela. Segurava-o bem fundo quando os meninos da escola riam dela. Ninguém merecia seu mar. Não agüentou por muito tempo, e quando precisava derramar um pouquinho dele, se trancava no quarto e lá o deixava rolar. Criava ondas nas maçãs do rosto e alcançavam a boca. Voltavam pra dentro dela. Era o ciclo natural.

Cresceu e apesar de toda a fisiologia, biologia, etceterologia ela sabia a sua verdade. Sabia do seu mar. Sabia de si. Sabia tão bem de si que depois de um tempo já não deixava seu mar ir embora por qualquer um.

Oportunidades houveram, ele ameaçava transbordar e inundar o mundo. Não deixava. Quando ficava feliz demais também não o deixava. Sabia que algum dia ele iria, quer ela quisesse ou não, mas por enquanto ele ficava lá, intacto. Chegou a se perguntar se as pessoas faziam o que faziam apenas para testá-la, pra ver se o seu mar ia embora. Gananciosas, sempre querendo o que era dos outros. Leu em algum lugar que “Amar é dar aquilo que não se tem a quem não merece.”. Ela não tinha vontade de dar seu mar a ninguém. E se o caso era ao fim de tudo perceber que aquele alguém não merecia tudo que lhe foi dado, acreditava ser algo inútil se quer tentar amar.

Chegou à conclusão que nunca amaria ou amara ninguém. Só a mãe e o pai possivelmente. Se a lógica era essa. Só por eles ela fazia isso. Por eles ela havia chorado, por colo, por birra, pra brincar e ás vezes só pra ver os dois lhe mimando. Também chorava de rir. Mas tudo isso foi antes dela perceber a preciosidade que saía dela.

Cresceu assim e foi feliz. Claro que foi. Achava que era. Pensando bem, tinha dúvidas às vezes, mas logo passava. Bobagens apenas.

Encontrou alguém. Mas também não chorava por ele. Ele só a fazia feliz. E de todo modo ela não chorava de felicidade. Viu que era bom. Resolveu viver assim, estava melhor do que antes e agora tinha alguém. Mas sempre faltava algo. A falta. O vazio dentro de si.
Aos 29 anos, ela viu o atlântico se derramar. Não fez força alguma para segurá-lo. Não fez nada. Só observou e o deixou ir. 49 centímetros anunciando a plenos pulmões que o Atlântico havia encontrado o oceano Pacifico e agora os dois se fundiam. Deu o nome de Ana.

Alana Ávila

Sempre me encantou a ideia de alguém guardar dentro de si aquilo que é muito maior e aparentemente impossível de se possuir. O Oceano dentro de Maria Luiza era algo inguardável (essa palavra existe?), mas existia ali, dentro dela, dando-a o prazer de ter, esconder, e não usar quando não queria como se o mar fosse um brinquedo e não quisesse dividir com ninguém.
Percebi também que há dois pontos altos no texto. A infância, no início, e a maternidade, no fim. O meio só conta o que se relaciona com o oceano de Maria Luiza durante as situações por que passara. Muito rápido. Aliás, esse é o grande defeito dos contos: são rápidos. Não nos dão tempo de nos apegarmos aos personagens e nem nos dão a oportunidade de sentir falta dos mesmos.
Gostei muito do conto. Especialmente pelos dois pontos altos de que falei antes. Ele tem um impacto suave logo no início, característica essencial de todos (ou quase todos) os textos da Alana.

Carpe diem.